Oftalmologia sem Mistérios

O futuro da monitorização do Glaucoma: O que aprendemos com os novos dados sobre a flutuação da PIO de 24 horas?

Baseado no estudo: “Daily Intraocular Pressure Rhythms and Their Association with Glaucoma Progression” (Ophthalmology, 2025)

Quando surgem casos de glaucoma no consultório, enfrentamos, muitas vezes, o mesmo dilema: por que alguns pacientes progridem mesmo apresentando níveis pressóricos aparentemente controlados em nossas consultas de rotina? A resposta, como reforça a recente publicação na Ophthalmology, reside no que acontece quando o paciente sai do nosso consultório.

A publicação “Daily Intraocular Pressure Rhythms and Their Association with Glaucoma Progression” traz luz a um dos pilares mais desafiadores da nossa subespecialidade: o ritmo circadiano da Pressão Intraocular (PIO) e seu papel determinante na neuropatia óptica glaucomatosa.

A ilusão da “Medida Única”

Tradicionalmente, baseamos nossas decisões terapêuticas em medidas isoladas de PIO durante o horário comercial. No entanto, o estudo em questão corrobora que a PIO é uma variável dinâmica. O ponto central da discussão não é apenas o “pico” pressórico, mas a amplitude da flutuação e o comportamento da PIO durante o período noturno (fase supina).

Para o médico oftalmologista, entender que a progressão do glaucoma está intimamente ligada a esses perfis de flutuação de 24 horas é um divisor de águas. O estudo demonstra que pacientes com ritmos circadianos mais erráticos ou com picos noturnos sustentados apresentam um risco significativamente maior de perda de campo visual e afinamento da camada de fibras nervosas da retina (RNFL), independentemente da média da PIO diurna.

Pontos de destaque para a prática clínica:

  1. A importância da monitorização prolongada: O artigo reforça que dispositivos de monitorização contínua (como sensores de contato ou telemetria) e o teste de sobrecarga hídrica podem oferecer pistas valiosas sobre como o olho do paciente se comporta fora do ambiente controlado do consultório.
  2. O papel do período noturno: A transição para a posição supina eleva a PIO e altera a pressão de perfusão ocular. O estudo sugere que a incapacidade do sistema de autorregulação vascular em compensar esses picos noturnos é um preditor de progressão mais fidedigno do que se pensava anteriormente.
  3. Personalização terapêutica: Se a flutuação é o problema, a nossa estratégia deve focar em fármacos ou procedimentos (como o SLT ou cirurgias microinvasivas – MIGS) que ofereçam maior estabilidade pressórica ao longo das 24 horas, e não apenas uma redução bruta da PIO em horários específicos.

Educação médica e tomada de decisão com segurança

Na nossa missão como educadores, ressaltamos que este estudo não apenas adiciona dados estatísticos, mas exige uma mudança de mindset. O “Alvo Terapêutico” deve ser revisto. Não buscamos mais apenas um número (ex: 12 mmHg), mas sim uma curva pressórica achatada.

Para o clínico, o manejo do glaucoma em 2025 exige uma visão holística. Devemos questionar: o tratamento atual do meu paciente está cobrindo o pico que eu não estou vendo?

A ciência reafirma que o glaucoma é uma doença de 24 horas. Publicações como esta na Ophthalmology são fundamentais para que possamos refinar nosso julgamento clínico e oferecer aos nossos pacientes uma proteção real e contínua contra a cegueira.

Como escola, incentivamos todos os colegas a aprofundarem-se na análise desses ritmos biológicos. O conhecimento detalhado do comportamento circadiano da PIO é, sem dúvida, a próxima fronteira na medicina de precisão aplicada à oftalmologia.

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