A medicina, e em especial a oftalmologia, é um campo de constante evolução. A cada dia, novas tecnologias e abordagens desafiam paradigmas e nos convidam a repensar nossas práticas clínicas. Este dinamismo é particularmente evidente na cirurgia de catarata, especialmente quando se trata de pacientes com histórico de procedimentos refrativos, como LASIK e PRK. Por décadas, a busca pela emetropia ideal nesses casos tem sido uma jornada complexa, marcada pela imprevisibilidade e desafios no cálculo da LIO. Contudo, uma pesquisa recente vem iluminando um caminho promissor e reforçando a necessidade imperativa de nos mantermos à frente do conhecimento.
Uma tecnologia que tem ganhado destaque e, agora, validação robusta é a Lente Ajustável pela Luz (LAL). Aprovada pelo FDA em 2017, a LAL não é apenas uma LIO premium; ela representa um salto conceitual ao oferecer a capacidade única de ajuste refrativo no pós-operatório, uma característica revolucionária para a precisão que buscamos.
A LAL em detalhes: Um olhar sobre sua mecânica e promessa
A LAL é composta por um silicone fotorreativo, o que a distingue das lentes intraoculares convencionais. Sua singularidade reside na possibilidade de modificar seu poder esferocilíndrico após a implantação, por meio de sessões controladas de luz ultravioleta (UV) aplicadas com um dispositivo específico, o Light Delivery Device (LDD). Uma vez que o alvo refrativo é atingido e confirmado, um processo de “lock-in” é realizado para estabilizar permanentemente a refração da lente. Essa capacidade de “refinamento” pós-cicatrização é particularmente crucial para olhos que já sofreram alterações corneanas induzidas por cirurgias refrativas prévias.
O estudo de Jones et al. (2024): Uma validação importante
A relevância da LAL foi recentemente consolidada por um estudo detalhado publicado na Clinical Ophthalmology em 2024 por Jones et al. (referência:pmc.ncbi.nlm.nih.gov). A pesquisa focou em uma coorte expandida de 76 olhos (70 pacientes) com histórico de LASIK ou PRK, uma população desafiadora onde a precisão refrativa é tradicionalmente difícil de alcançar.
Os pesquisadores utilizaram a LAL de 2ª geração (ActivShield) e a fórmula Barrett True-K para o cálculo da LIO, com um objetivo ambicioso de emetropia. Os ajustes da LAL foram iniciados entre 6 e 8 semanas pós-operatórias, após a estabilização do olho. Os resultados são, no mínimo, encorajadores:
- Acuidade Visual Pós-Ajuste:
- 74% dos olhos alcançaram uma Acuidade Visual Não Corrigida à Distância (UDVA) de 20/20 ou melhor.
- 88% atingiram UDVA de 20/25 ou melhor.
- Precisão Refrativa:
- Impressionantes 86% dos olhos ficaram dentro de ±0,50 D do equivalente esférico alvo.
- Um dado crucial que ressalta o poder do ajuste: antes das sessões de luz, apenas 68% dos olhos estavam dentro dessa margem de ±0,50 D.
O estudo também oferece insights valiosos sobre o impacto do número de cirurgias refrativas prévias:
- Para olhos com 1 cirurgia refrativa prévia: 84% atingiram UDVA de 20/20 ou melhor e 91% ficaram dentro de ±0,50 D do alvo.
- Para olhos com ≥2 cirurgias refrativas prévias: Mesmo nos casos mais complexos, 58% alcançaram UDVA de 20/20 ou melhor e 75% ficaram dentro de ±0,50 D do alvo, resultados notáveis considerando o ponto de partida.
Implicações práticas e o cenário futuro
Os achados de Jones et al. sublinham que a LAL é uma excelente opção para pacientes com olhos pós-refrativos que possuem altas expectativas visuais. Ela permite um “refinamento” da refração que minimiza a dependência de retoques corneanos adicionais.
No entanto, como toda tecnologia de ponta, existem considerações importantes:
- A LAL é uma lente premium, o que implica um custo adicional (tanto da lente quanto das sessões de ajuste).
- Os ajustes exigem uma dilatação pupilar adequada (mínimo de 6,5–7,0 mm), um fator a ser avaliado na seleção do paciente.
- É importante notar que a LAL não corrige aberrações de alta ordem corneanas pré-existentes.
- Estudos continuam a explorar a associação da LAL com óptica adaptativa para compensar potenciais distorções ao longo do tempo.
A urgência da atualização contínua
Os avanços representados pela LAL e confirmados por estudos como o de Jones et al. servem como um lembrete contundente: a oftalmologia é um campo que não permite estagnação. A capacidade de oferecer aos nossos pacientes os melhores resultados depende diretamente da nossa disposição em abraçar novas tecnologias, compreender a ciência por trás delas e, crucialmente, manter-nos atualizados com a literatura científica.
Nesse cenário dinâmico, o oftalmologista do século XXI não é apenas um cirurgião ou um clínico, mas também um eterno estudante. A leitura crítica de publicações originais, a participação em congressos e a troca de experiências com colegas são ferramentas indispensáveis para integrar inovações como a LAL em nossa prática de forma eficaz e segura. Somente assim poderemos continuar a elevar o padrão de cuidado e a transformar a qualidade de vida de nossos pacientes, especialmente aqueles em condições que antes eram consideradas as mais desafiadoras.
Qual a sua perspectiva sobre a LAL e a importância dos estudos científicos em sua prática diária? Compartilhe seus pensamentos!
Referência: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11338023/


